Não me interessa tanto falar de Agostina Páez como pessoa. Interessa-me a cultura que a produz, a protege e a explica. Interessa-me, sobretudo, a cadeia de reações que isso desencadeou na Argentina: os meios de comunicação, os comentaristas, os tuiteros de direita, o seu advogado e ela mesma, que além disso não é uma jovem qualquer surpreendida por uma situação jurídica incompreensível, mas uma advogada.

E é aí que começa o verdadeiramente grave. Porque este caso não revela apenas uma agressão racial. Revela algo pior: revela até que ponto a Argentina naturaliza a agressão, trivializa o racismo e sentimentaliza quem agride.

Porque este caso não revela apenas uma agressão racial. Revela algo pior: revela até que ponto a Argentina naturaliza a agressão, trivializa o racismo e sentimentaliza quem agride.

Para entender por que isso acontece, é preciso dizer algo incômodo desde o início: a Argentina construiu-se durante mais de um século como um país imaginariamente branco, europeu e “sem negros”. Essa ficção estatal e cultural não apagou o racismo; apagou a linguagem para reconhecê-lo. O próprio INDEC só no Censo de 2022 voltou a medir de forma específica a população que se reconhece afrodescendente ou com antepassados negros ou africanos, registrando 302.936 pessoas. Ou seja: a invisibilização foi tão forte que parte do senso comum ainda fala como se essa população não existisse.

A Argentina construiu-se durante mais de um século como um país imaginariamente branco, europeu e “sem negros”. Essa ficção estatal e cultural não apagou o racismo; apagou a linguagem para reconhecê-lo. O próprio INDEC só no Censo de 2022 registrou 302.936 pessoas. Ou seja: a invisibilização foi tão forte que parte do senso comum ainda fala como se essa população não existisse.

Por isso, na Argentina, o racismo costuma aparecer traduzido para outro idioma: o da “falta de respeito”, da piada, da provocação, do “exagero”, do “se passou”, do “foi sem querer”. E por isso também, quando algo assim acontece no Brasil, o reflexo argentino não consiste em perguntar que história essa agressão ativa, mas em compadecer-se da pessoa acusada. Não é acidente que os meios tenham montado imediatamente uma cena emocional: “pesadelo”, “emocionada”, “sozinha em outro país”, “aliviada”. Tudo isso funciona como uma operação moral. A televisão pega um fato grave e o transforma em melodrama. A vítima desaparece. O contexto desaparece. A história desaparece. O que resta é o sofrimento da acusada. E esse deslocamento é indecente, porque educa o público numa lógica perversa: a agressão torna-se secundária e a sanção torna-se intolerável.

Quando algo assim acontece no Brasil, o reflexo argentino não consiste em perguntar que história essa agressão ativa, mas em compadecer-se da pessoa acusada. Não é acidente que os meios tenham montado imediatamente uma cena emocional: “pesadelo”, “emocionada”, “sozinha em outro país”, “aliviada”. A televisão pega um fato grave e o transforma em melodrama. As vítimas reais desaparecem.

Do outro lado, o Brasil reage como reage porque tem outra história, outra memória e outra arquitetura jurídica. O Brasil foi o último país ocidental a abolir a escravidão, em 1888, com a Lei Áurea. Essa abolição foi tardia e brutalmente insuficiente: encerrou formalmente a escravidão, mas não resolveu a desigualdade estrutural que deixou. Durante muito tempo, além disso, o país conviveu com o mito da “democracia racial”. A Constituição de 1988 rompe parcialmente com essa negação e estabelece, no artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. Isso não é decorativo. Significa que o Estado brasileiro decidiu tratar o racismo não como grosseria privada, mas como ameaça à igualdade jurídica e, portanto, à própria democracia. A ONU, inclusive, tem destacado que o Brasil reconhece o racismo e a discriminação racial como fenômenos sistêmicos, com estruturas de desigualdade ainda vigentes.

Assim, quando uma agressão desse tipo ocorre no Brasil, o país não a lê como a televisão argentina a lê. Não a lê como um mal-entendido entre turistas nem como “falta de respeito”. Lê-a dentro de uma história precisa de humilhação racial, animalização e negação de cidadania. Aí está a superioridade brasileira neste caso: uma superioridade institucional, profissional, jurídica e ética. Mesmo quando há respostas vulgares de terceiros, o aparato sério do Estado não perde o eixo. A polícia atua. A justiça enquadra. A advogada brasileira trabalha. O processo se organiza. Não há sentimentalismo barato nem ignorância performática.

Quando uma agressão desse tipo ocorre no Brasil, o país não a lê como a televisão argentina a lê. Não a lê como um mal-entendido entre turistas nem como “falta de respeito”. Lê-a dentro de uma história precisa de humilhação racial, animalização e negação de cidadania. Aí está a superioridade brasileira neste caso: uma superioridade institucional, profissional, jurídica e ética

E aqui entra um ponto central: Agostina é advogada. Isso agrava tudo. Uma advogada não pode alegar ingenuidade total sobre o peso de suas palavras, sobre a diferença entre estratégia e reconhecimento, sobre o lugar processual que ocupa. No entanto, cada vez que fala, não melhora sua situação: piora. Não articula defesa técnica, não demonstra compreensão do enquadramento jurídico, não exibe inteligência profissional. Legalmente, é quase muda. Não tem iniciativa. Não conduz nada. Apenas irrompe para ofender, descentrar a própria estratégia de defesa ou introduzir uma resistência narcisista a uma saída que, objetivamente, a está favorecendo. Quando diz “pedi desculpas às vítimas… às supostas vítimas”, uma advogada não comete um pequeno deslize. Revela uma estrutura mental: pede desculpas porque convém, não porque reconheça o dano.

A comparação com a advogada brasileira é devastadora. Ela entende a cena, a lei, a imprensa e a gravidade do caso. Corrige, repete, enquadra, administra e protege. E consegue algo que deve ser dito sem eufemismos: estão tratando Agostina bem. Muito melhor do que a gravidade constitucional do delito permitiria imaginar. Se o racismo no Brasil é inafiançável e imprescritível, e ainda assim se abre uma via de ressarcimento e negociação, isso indica concessão séria do sistema. E, mesmo assim, Agostina aparece reticente, presa ao cálculo, ao “vamos ver”. Isso já não é apenas torpeza. É decadência moral e profissional.

Se o racismo no Brasil é inafiançável e imprescritível, e ainda assim se abre uma via de ressarcimento e negociação, isso indica concessão séria do sistema. E, mesmo assim, Agostina aparece reticente, presa ao cálculo, ao “vamos ver”. Isso já não é apenas torpeza. É decadência moral e profissional.

Screenshot

Fanon ajuda a tirar o caso do nível anedótico. Em Pele negra, máscaras brancas, ao lembrar o menino branco que o aponta e diz “Mamãe, olha, um negro! Tenho medo!”, Fanon escreve: “Descobri-me objeto entre outros objetos” e “estava sobredeterminado desde fora”. Ou seja, o sujeito negro aparece já fixado por uma história que o transforma em categoria antes mesmo de falar. Isso é o que a Argentina banaliza constantemente: a transformação do outro em categoria degradada. O Brasil, neste caso, recusa banalizar isso. A agressão importa porque ativa esse arquivo histórico de

Du Bois descreveu algo semelhante com a “dupla consciência”: a experiência de ver-se através dos olhos de uma sociedade que já o classificou. Isso conecta com a experiência que você viveu com Rogério: você conseguiu um doutorado, ele não. Não porque um valesse mais, mas porque a estrutura distribui pertencimento e legibilidade de forma desigual. Isso é o que Fanon chama de estar “sobredeterminado desde fora”. A educação não elimina a racialização.

Por isso este caso não deve ser lido como escândalo turístico, mas como sintoma de uma cultura argentina em decadência perceptiva. Uma cultura que, há anos — e com o mileísmo em tom cada vez mais alarmante — se acostuma à crueldade, à humilhação do outro e à naturalização da agressão como forma legítima de presença pública. Esse é o ponto central. Não se trata apenas de uma advogada que agiu de forma infame. Trata-se de uma atmosfera nacional que permite que parte do ecossistema midiático e político reaja perguntando não pela gravidade do fato, mas pelo incômodo da sanção.

Por isso, no fim, o mais inquietante não é Agostina. O mais inquietante é que na Argentina haja tanta gente disposta a compreendê-la antes de compreender o que ela fez. O mais inquietante é que uma agressão racial ainda possa ser traduzida, com tanta facilidade, para o idioma sentimental do “pesadelo”, da jovem sozinha, do castigo exagerado. Quando isso acontece, já não estamos diante de um caso individual. Estamos diante de uma pedagogia social da decadência. E isso, sim, deveria alarmar.

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

Tendencias